FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País)

28/08/2012 11:39

 

A nossa Lilliput

No romance “As Viagens de Gulliver”, este personagem visita as cidades de Lilliput e de Blefusco, paródias do autor para o comportamento das pessoas da Inglaterra e da França do século XVIII. Lilliput foi o nome que resistiu aos anos e serve hoje para identificar uma comunidade pequena e frágil que tem de buscar seus recursos de forma quase autárquica.

 

De um lado,

Uma cidade pequena, constrangida pela geografia e com dificuldades de acesso, como Petrópolis é, apresenta inúmeras dificuldades para proporcionar a livre movimentação dos fatores de produção, uma condição que é indispensável para o investimento produtivo em época de globalização.

Singapura, que tem a área de Petrópolis, conseguiu sair da posição de mero entreposto comercial inglês e se tornar um país relevante política, comercial e economicamente no espaço de 30 anos somente porque pensou, desde o início, em como atrair o investimento estrangeiro. Entre outras políticas, facilitou a migração de trabalhadores estrangeiros qualificados – 37% da população local em 2011, de forma a consolidar uma liderança em determinadas áreas eleitas como prioritárias. Sem os recursos naturais, tratou de facilitar o seu acesso dentro e fora do país, definindo regras de livre comércio e organizando o espaço local. Na total ausência de terras para expandir a economia, Singapura adotou um planejamento de sucesso, no qual os novos projetos são concentrados em locais, buscando obter “economias de aglomeração”, como é o caso da Biopolis, que visitei.  https://www.a-star.edu.sg/tabid/861/default.aspx

“Economia de aglomeração” é o termo que se usa para descrever a vantagem que a Inglaterra obteve com a concentração de recursos e trabalhadores em torno das fábricas têxteis, que acabaram alimentando a criação das cidades ao seu redor, durante a Revolução Industrial no século XVIII. O segredo não foi só “juntar” empresas e recursos. A vantagem inglesa decorreu do alcance de volumes de produção cuja “escala” tornava mais barato tudo desde a compra da matéria-prima.

A economia de escala sozinha, contudo, não gera desenvolvimento social: é o fenômeno da aglomeração que alimenta sucessivas gerações de escalas na cadeia produtiva, especialmente entre fornecedores de partes, de serviços e de mão-de-obra qualificada – as escolas e faculdades. Mas nenhuma cidade é capaz de obter escala em todas as áreas de conhecimento.

Singapura não é o país de todas as tecnologias e teve de fazer escolhas, elegendo algumas poucas e rejeitando as demais. Uma das principais é a biotecnologia, não toda ela, mas apenas a biotec voltada para a produção de patentes de fármacos e de biossimilares.

 

Por outro lado,

Como transferir a experiência de sucesso de Singapura para um continente como é o Brasil? Ora, tanto a falta de espaço quanto o seu excesso configuram um problema. No Brasil, a necessidade de maioria política no Congresso (todos os Presidentes que perderam esta maioria caíram ou foram depostos) impõe a realização de acordos por motivos que nem sempre tangenciam o interesse público. Não há planejamento geral porque o governo não sabe (e não pode) dizer “não” para nenhuma iniciativa da sua base de apoio. São inúmeras cidades com universidades disputando a liderança em determinada tecnologia ou ciência. Parques tecnológicos também competem. O problema não é a competição pelos resultados científicos, mas a competição pelos recursos públicos federais que, inúmeras vezes divididos, não favorecem o alcance de resultados relevantes por nenhuma dessas entidades.

A falta de foco e de diretrizes políticas para o desenvolvimento resulta na insegurança e no desestímulo do investidor. Não há como se promover o investimento do capital internacional em uma cidade do Brasil para a qual não se demonstrem firmes Políticas Públicas que favoreçam a economia de aglomeração em torno das tecnologias que ela pretende desenvolver e produzir. Sem esta definição estratégica, a tendência é que os investimentos se concentrem em torno de regiões já desenvolvidas, como o estado de São Paulo, pois lá já há uma base “aglomerada” com empresas que já possuem “escala”.

 

Em Petrópolis,

Com a abertura da campanha eleitoral para a Prefeitura, recomeça a coleção de declarações para somar ao FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) do saudoso Sérgio Porto.  É hora do cidadão abrir os olhos para distinguir os “FEBEAPÁS” dos candidatos daquelas propostas que contribuem para o nosso desenvolvimento local em base nacional e internacional.

A prioridade de Petrópolis não pode ser se tornar mais uma cidade que contribuirá para os planos políticos do governador do estado do Rio nem para aqueles da presidente da República.

Temos vocações próprias que são o turismo, a indústria têxtil (malhas), a indústria moveleira e, talvez, a Biotecnologia, encabeçada pelo LNCC (bioinformática). Precisamos que nossas escolas técnicas de turismo, têxtil, madeira e móveis e de atividades relacionadas com a Biotecnologia (análises clínicas, por exemplo) estejam entre as melhores do País. Precisamos que nossas faculdades, das mesmas áreas prioritárias, também estejam entre as melhores do País e que estas faculdades também desenvolvam pesquisas aqui.

Antes de tudo, precisamos definir uma política de incentivo que começa na identificação de locais para investimento industrial, definição de projetos de melhoria da infra-estrutura pública para estes locais e projetos de organização e promoção comercial das micro e pequenas empresas petropolitanas.

Não sei se esqueci de algum outro talento de nossa cidade, mas para uma cidade com 300 mil habitantes, um PIB de cerca de R$ 5 bilhões e orçamento municipal de cerca de R$650 milhões essas 4 frentes de desenvolvimento já são demasiadas para serem geridas pelo futuro Prefeito, que ainda terá de resolver os problemas de (sub)urbanização, transporte, saúde, coleta e disposição do lixo doméstico, ... UFA!

Ocupamos a área de Singapura, mas é difícil que cheguemos a ter sua pujança econômica, afinal são 5 milhões lá contra 300 mil aqui... O que não podemos é deixar de crer que podemos decidir por um caminho melhor e ter uma cidade onde todos possam se beneficiar do desenvolvimento, sem depender de esmolas que governantes só oferecem porque não saem de seus bolsos e porque podem beneficiá-los com votos.

Matéria: Eng. Sergio Figueiredo

 


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