A caçada urbana

21/08/2012 11:37

 

Houve um tempo em que as pessoas não tentavam aparentar status social diferente da sua origem e renda. Bens duráveis, como carros, geladeiras e televisões eram comprados para durar uma vida – embora a vida durasse menos que hoje em dia. Eram produtos escassos que ofereciam distinção social pela sua função em um país sem serviços públicos. Em uma emergência, o dono do carro da localidade é quem levava o doente para o hospital. O dono do telefone - lembra a época da Telerj e da Cetel? – era quem permitia as ligações de favor, em alguns casos cobrando por elas. O valor dos serviços deles para a comunidade é que distinguia seu possuidor, não a sua posse.

Era improvável que, fora das fazendas, houvesse quem arcasse com o custo de armazenar alimentos que não fossem para consumo amanhã ou depois de amanhã. Havia mercearias e quitandas cujas quantidades negociadas eram suficientes para atender às residências. Roupas eram feitas por costureiras e era difícil alguém aceitar vestir algo igual ao de outra pessoa. As pessoas buscavam suprimentos para atender às suas necessidades e não viam vantagens na acumulação de bens e produtos.

Foi com a crise dos anos 1980, mas não causado por ela, que o Rio de Janeiro passou a viver o período da abundância e do consumismo, sendo aberto o Barra Shopping em 1981, atraindo consumidores de toda a cidade. É o momento em que ganha força o consumismo, subvertendo a lógica do suprimento. Em vez de buscar suprir uma necessidade, o consumidor passou a buscar oportunidades para consumir, ainda que sejam objetos ou serviços objetivamente desnecessários. O ato de “comprar” passou a ser uma forma de apaziguar as ansiedades da sociedade moderna.

O consumo passou a oferecer o prazer idêntico ao obtido em uma caçada, mas cujos troféus não são mais as cabeças das feras abatidas, mas as qualidades da compra ou do bem comprado, desde que reconhecidas pelo público e pela mídia. Um produto raro, o mais barato ou o melhor local para comprar são resultados apresentados como vitórias que distinguem os consumistas entre si. Mesmo a identidade individual se transformou. Usar uma roupa que não tenha marca, em vez de determinar uma individualidade, passou a ser entendida como falta de capacidade de pertencer ao grupo predominante. A distinção do indivíduo agora se dá através dos grupos e suas marcas.

Se o ato de consumir gera empregos – os que produzem, os que vendem e os que recolhem o lixo -, se ele movimenta a economia e se deixa as pessoas felizes, qual o problema dessa nova fase do capitalismo hegemônico?

O problema central do consumismo é o uso ineficiente de recursos naturais, como a energia. O fato de que não enfrentamos nenhuma crise energética nem de matérias primas, neste momento, não quer dizer que possamos desperdiçar recursos naturais. Aliás, haveria outras aplicações mais prazerosas de nossos recursos se pudéssemos refletir e avaliar opções que nem sempre estão na mídia e nem são tão facilmente acessíveis, por não se encontrarem em shopping centers.

O fato é que as pessoas da polis dependem do hábito de comprar para alcançar a felicidade. Vem sendo defendido, inclusive, um novo direito humano, que seria o direito econômico. Ora, somente em um período de abundância é possível suportar desperdício tão grande. O pior é que a economia anda em ciclos e o encolhimento pelo qual vários países têm passado, inclusive o Brasil, é certo, embora não seja certa sua duração e extensão.

Certo que há outras formas de prazer além do consumo. Também é certo que, tal como as cabeças das “feras” caçadas, os produtos adquiridos pelo prazer simplório de comprar ficam velhos e perdem a graça, ensejando novas “caçadas” nos shopping centers. A questão é que, assim como os safáris, a compra desmotivada prejudica a natureza e nada agregada à nossa humanidade.

 

Sérgio Figueiredo

 


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